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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

TRISTEZA

Nem um murmúrio no ar
Na solidão de meu lar
Onde só meus passos escuto,
Nem saltitar de criança
Nem o roçar duma trança
Onde sempre paira o luto

Nas paredes alinhados
Há quadros já degradados
Que ninguém ousa fitar,
São cheios de romantismo
Mas não me salvam do abismo
Que se alojou no meu lar.

Num caminhar apressado
Caminho até ao mercado
Passando pelo jardim
E ao longe, p'ra recordar
Avisto a praia e o mar
Tão perto, e longe de mim....

Regresso em passo cansado
Sinto a Djali a meu lado
Madeiro de peso enorme,
Num lugar longe do meu
Coberta por terra e céu
Agora p'ra sempre dorme.

Mas porquê, Senhor, nos deste
O que a sofrer Tu perdeste
Neste mundo conturbado,
Porque nos deste o nascer
Se teremos de morrer
Sem sequer termos pecado?

Manuela Figueiredo Sopas

2/6/2008

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Pecado

Naquela já longínqua manhã o sono venceu-me, pois deitara-me tarde na noite anterior, pois como fora domingo tínhamos representado mais uma vez para os nossos pais e avô, pois na época nem rádio nem televisão ainda faziam parte de nossas vidas, pois esses eventos vieram muito mais tarde.
Acordei sobressaltada já o sol despontara, com o barulho de minha irmã que me chamava abespinhada:
- Despacha-te, dorminhoca, senão não chegaremos a tempo à escola.
Apressadamente, ainda estremunhada, saltei da cama, lavei a cara e alisei os cabelos bastante emaranhados pelas voltas e reviravoltas que dera durante a noite, devido aos sonhos agitados e confusos que sempre agitavam minha mente.
Depois de engolido à pressa o pequeno almoço, o café com leite e a fatia de pão escuro barrada de manteiga, saca grosseira de linhagem com uma grande flor garrida estampada já um tanto desbotada pelas lavagens constantes a que era submetida e onde deixara de véspera o livro de leitura, o velho João de Deus que ainda hoje conservo, único e comum a todo o ensino pré-escolar, eis-nos a caminho, pois ainda andaríamos perto de meia hora, no nosso passo miudinho, até chegarmos ao nosso reduto, a escola do Gás, como era chamada. Devido a ficar situada perto das antigas instalações onde outrora funcionara a fábrica de Gás que abastecia toda a cidade.
A manhã estava fria e comecei a sentir frio e a sensação de que algo me esquecera de vestir por baixo da saia de chita florida, um tanto imprópria para a quadra outonal que se aproximava.
Curiosa levantei a saia, e qual não foi o meu espanto e aflição ao ver-me nua da cintura para baixo.
Alarmada com tamanha descoberta, confessei a minha irmã::
- Nanda, esqueci-me de vestir cuecas. Como posso agora ir à escola assim, e enfrentar toda a sala de aula, meninas e rapazes?
Não seria melhor voltarmos para casa?
- Palerma, ripostou a minha irmã, dois anos mais velha do que eu, mas com uma maturidade e esperteza muito mais desenvolvida
- Calas-te, e nada dizes, pois ninguém descobrirá.
Mas a noção de pecado incutida dia a dia pela professora, solteira, já em idade madura, um poço de pureza na sua religiosidade, minou-me a cabeça e a tentação de tudo contar logo que chegasse não me saía do pensamento, temente da ira do Senhor.
Se bem o pensei melhor o fiz. Antes que a aula principiasse cabisbaixa e pé-ante-pé, aí vou eu até à secretária e confessei titubeante o grande pecado cometido: não
vestira cuecas.!
A mestra olhou-me com ar reprovador e disse:
- Não voltes a fazer isso minha filha. Vai-te sentar ao cantinho da sala, no estrado de acesso ao quadro com as pernas muito juntinhas, e hoje estás dispensada das lições.
Toda a classe, em risos abafados, fixou os olhos em mim, muito corada, envergonhada com tão profana confissão.
De regresso a casa o que fizera foi alvo das censuras de minha irmã, que tanto me recomendara o silêncio.
Ainda parecia ouvir as gargalhadas de meus colegas, e nem consegui espreitar nos poisios as osgas e gafanhotos espreitar nas suas locas o pouco sol já em declínio, saltitando assustadas quando ouviam os nossos pequenos passos, para depressa se esconderem no seu habitat para se protegerem destes pequenos gigantes que dia a dia invadiam o seu mundo animal.
Muitos anos passaram, e mais tarde, já na adolescência também exerci o curso de Regente escolar, ocupando também uma pequena secretária, o mesmo lugar da D. Conceição, religiosa em exagero. Que um dia tanto condenara o meu irreflectido e infantil esquecimento tão normal numa criança de cinco anos apenas!
Naquela escola à beira-mar, em zona piscatória cercada dum areal imenso, e frequentada por crianças bastante carenciadas, perdi-me nas brumas da saudade e procurei entre todas aquelas crianças que me olhavam curiosas, desinibidas, e até um tanto atrevidas, aquela menina de olhos negros e meigos que ousara um dia enfrentar toda uma classe para confessar o que julgava ser um grande pecado, pecado esse incutido pela rigidez da época e aliviar assim o peso da sua consciência infantil.
Mas não a encontrei. Fora única e perdera-se há muito e perdera-se há muito na estrada sinuosa da vida...



Manuela Figueiredo Sopas