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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

POBRES POMBAS

Vi-as p'lo chão espanejando
Aqui e além debicando
Para a fome mitigar,
À espera que mão bondosa
Lhe atirasse caridosa
Umas migalhas p`lo ar.

Expostas a todo o tempo
Açoitadas pelo vento
E pela chuva batidas,
Ei-las pelas ruas paradas
Em grupo, quase aninhadas
Perdidas suas guaridas.

Alguns anos se passaram
Desde a data em que moraram
Empoleiradas no ar,
Tinham casas abrigadas
E as moelas saciadas
Pelas gentes do lugar.

Nem crianças balouçando
Nem canteiros perfumando
O meu jardim de outras eras
Nem pares de namorados
Buscam os bancos pedrados
Entre sonhos e quimeras.

Pobres pombas despojadas
Das casinhas nas ramadas
Bem frondosas do jardim,
Onde hoje só para olhar
Há ervas a germinar
E velhos... esperando o fim

Manuela Figueiredo Sopas

29/2/2008

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

TRISTEZA

Nem um murmúrio no ar
Na solidão de meu lar
Onde só meus passos escuto,
Nem saltitar de criança
Nem o roçar duma trança
Onde sempre paira o luto

Nas paredes alinhados
Há quadros já degradados
Que ninguém ousa fitar,
São cheios de romantismo
Mas não me salvam do abismo
Que se alojou no meu lar.

Num caminhar apressado
Caminho até ao mercado
Passando pelo jardim
E ao longe, p'ra recordar
Avisto a praia e o mar
Tão perto, e longe de mim....

Regresso em passo cansado
Sinto a Djali a meu lado
Madeiro de peso enorme,
Num lugar longe do meu
Coberta por terra e céu
Agora p'ra sempre dorme.

Mas porquê, Senhor, nos deste
O que a sofrer Tu perdeste
Neste mundo conturbado,
Porque nos deste o nascer
Se teremos de morrer
Sem sequer termos pecado?

Manuela Figueiredo Sopas

2/6/2008